Ex-fiel diz por que as Testemunhas de Jeová são uma 'seita destrutiva'




António Madaleno, que era
sacerdote, se indignou com a
proibição à transfusão de sangue
 e com o ostracismo aos ex-fieis,
inclusive desfazendo famílias
por  J. Plácido Júnior
para  Visão, de Portugal  

Um breve glossário é conveniente, desde já. António Madaleno (foto) foi durante dez anos ancião (indivíduo de “percurso imaculado”, que desempenha o papel de líder religioso) na congregação Lisboa-Sul das Testemunhas de Jeová (TJ), com Salão do Reino na Penha de França. 

As TJ têm uma estrutura inflexível: todas as determinações e supervisões provêm do Corpo Governante, um grupo de oito homens que está na sede mundial da organização, em Warwick, nos arredores de Nova Iorque. 

Essas ordens são enviadas para o Betel (“Casa de Deus” em hebraico), designação das sedes das filiais espalhadas pelo mundo, que por sua vez as transmitem aos anciãos, que estão no terreno para as ensinar aos seguidores. Sem qualquer margem de autonomia. 

Hoje com 45 anos e arte-finalista de profissão, António Madaleno diz que, desde crianca, teve um “comportamento exemplar” na organização, sem nunca comemorar o aniversário ou celebrar o Natal, como mandam as interdições internas.

Sempre acreditou que iria viver no “paraíso terrestre”, restaurado pelas TJ, após o holocausto do Armagedão, quando Jesus Cristo enviar as suas hostes celestiais para destruir toda a Humanidade “rebelde”, leia-se todos aqueles que não cumprem as ordens e as orientações de Jeová (Deus). 

Até que um dia... António acabou por se afastar da organização. Temos, pois, um “David” a enfrentar um “Golias” presente em 240 países e com mais de oito milhões de praticantes. Mas este “David” português está longe de atirar a toalha ao chão, como se verifica na entrevista que se segue.

Quando entrou pela primeira vez num Salão do Reino das TJ?

Era ainda bem pequenino. Fui levado pela minha mãe. Na altura, ela era apenas simpatizante, estudava a Bíblia com as TJ. E, nas oportunidades que tinha de ir às reuniões – o meu pai não era nem é TJ –, eu acompanhava-a. De modo regular, comecei a frequentar as reuniões a partir dos meus dez anos.

O que levou a sua mãe a aproximar-se das TJ?

Estava numa fase complicada da vida. Emocionalmente não se encontrava bem, a vida familiar era problemática e soube depois que até considerava o suicídio.

E encontrou o consolo de que precisava?

Claro que sim. Uma pessoa que chega a uma congregação é muito bem recebida, acarinhada. Tal receção faz com que essa pessoa acredite que as TJ são diferentes de tudo o resto. É apresentado o lado muito bonito, amoroso, muito simpático e atraente do grupo, que se considera uma família. É o que os peritos em seitas destrutivas e grupos de alto controle chamam de "love bombing", o bombardeio de amor, uma técnica  muito usada para cativar novos membros. Mas, depois de a pessoa entrar, e de se encontrar muito envolvida com o grupo, as coisas “acalmam”.

Disse “seita destrutiva”? 

Sem dúvida! Já pesquisei muito sobre o assunto e as TJ preenchem a maior parte das características de uma seita destrutiva. Ou seja, os líderes decidem tudo o que é certo ou errado na vida dos membros do grupo. É instigado um pensamento do “Nós vs. Eles” e os “irmãos” são orientados para reduzir ao máximo a socialização com pessoas de fora do grupo. Tudo o que uma TJ faz ou deixa de fazer é em função da doutrina, dos ideais do grupo. A vida gira em torno da religião. E os que entram em discordância, ou deixam de acreditar e de seguir o grupo, são expulsos e tratados como “apóstatas”, “filhos do Diabo”, “doentes mentais”...

Em concreto, isso traduz-se em quê, na sua opinião?

Não é a minha opinião, são fatos! Nas TJs, se alguém verbalizar, em público ou mesmo em privado, algo que vá contra o ensino da organização, essa pessoa fica marcada, de maneira automática, e com a vida complicada. Depois, ou se retrata, humilhando-se e arranjando algum tipo de argumento que minimize a ação “contra a organização”, ou é expulsa como “rebelde”. Nunca se sai bem das TJ, um grupo de alto controle em que a pessoa tem de aceitar a 100% o que a organização diz.

Esse retrato é um pouco vago…

Só estando lá dentro é que se conhecem os reais perigos do envolvimento com este tipo de grupo religioso. Há pais que chegam a pôr os filhos fora de casa. E isso é dado como exemplo. Ainda há dois anos, num congresso das TJ realizado em Portugal, foi passado um vídeo que dramatizava a história de uma garpta que, ao envolver-se romanticamente com um colega de trabalho, acabou expulsa da religião. Viu-se então renegada pelos amigos e pela família, que a pôs fora de casa e deixou de lhe atender o telefone. Mas, mais de 15 anos depois, já mãe de dois filhos, regressou à congregação e à “verdadeira felicidade”. Os pais, no entanto, só a aceitaram de volta depois de a sua readmissão ter sido publicamente anunciada à congregação. É pura chantagem emocional...

Qual é a responsabilidade da organização no caso do corte de laços familiares?

A família, que está dentro da religião, é incentivada a cortar laços com esse parente. Há pais que deixam de falar com os filhos, filhos que deixam de falar com os pais, e isto estende-se a todos os familiares. Basta pesquisar um fórum de ex-TJ para ver relatos muito, muito tristes, até de pessoas que depois se vem a saber que se suicidaram. 

Numa comunidade muito fechada ao exterior, como é a das TJ, em que a pessoa é incentivada a viver para o grupo, no interior do qual faz todas as suas amizades e trabalha de forma intensa para a organização, ficar, de repente, sem ninguém… O ostracismo e a “morte social” acontecem num instante. Basta ser anunciado na tribuna: “Fulano(a) tal já não é mais TJ.” O corte é imediato. Passam na rua ao lado dessa pessoa e nem lhe olham para a cara. Ou se olharem, o mais provável é que o façam com desdém ou com uma certa tristeza. Consideram que está perdida, que morreu para Jeová. E há pessoas que não aguentam esse corte radical – e caem na depressão.

Em criança, foi-lhe mostrado o apocalipse do Armagedão?

No meu tempo de criança e adolescente, só havia livros, ainda não existiam os vídeos. Mas esses livros tinham ilustrações muito descritivas do Armagedão, uma coisa horrível, um holocausto. Lembro-me, por exemplo, de gravuras da Terra a abrir-se e de bolas de fogo a caírem do céu, com as pessoas – homens, mulheres, e crianças, e até animais domésticos – a despenharem-se nos buracos e a serem atingidas por esses objetos a arder… 

Este tipo de ilustrações ainda existem hoje nas publicações para crianças. Isto marca e, consciente ou inconscientemente, depende da personalidade de cada um, ainda faz a pessoa ter mais medo de desobedecer às regras da organização. “Se eu falhar, errar, cometer um pecado que vá contra Deus, perco a vida. É a morte eterna. E se estiver vivo quando acontecer o Armagedão, aí, então, vai ser horrível.”

Como é explicado o Armagedão?

Acreditam que, no Armagedão, Jesus Cristo virá com as suas hostes celestiais que irão destruir toda a Humanidade “rebelde”. Só preserva vivos os que forem fiéis, entenda-se, as TJ. Depois dessa destruição, que segundo a organização, baseada em alguns textos bíblicos, vai deixar mortos em todos os cantos da Terra, as TJ irão ter o trabalho de os enterrar, ajudadas por aves necrófagas que chegarão do céu, para comer os cadáveres. A seguir, começará o trabalho de restauração da Terra, em que todas as TJ têm a tarefa de limpar, cultivar, construir casas, numa vida perfeita, o “paraíso terrestre”. O Reino de Deus estará somente no céu, onde Jesus e os 144 mil – um pequeno número de TJ que são escolhidas para ir para o céu reinar com Cristo – vão governar a Terra inteira durante mil anos.

Conheceu pessoas que se desfizeram de tudo em 1975 para receber o Armagedão, a mais recente data em que era suposto ter ocorrido? 

Li testemunhos de pessoas que abandonaram os empregos e se tornaram “pioneiras” – faltavam meses para o Armagedão, quiseram dar o máximo para salvar vidas. Pessoalmente, conheci pessoas que viveram esses dias e que me contaram que o sentimento era de euforia, perante o fim iminente deste “mundo de Satanás”, e a chegada da “nossa libertação” e do “paraíso”. Já agora, essa euforia foi provocada por discursos e material impresso da organização, que depois alegou um suposto mal-entendido por parte dos “irmãos”...

Você foi um ancião empenhado?

Acreditava com firmeza naquilo que fazia. O que fazia, fazia de coração.

Tinha autonomia de atuação?

Não há autonomia de ação face às determinações do Corpo Governante. As congregações, passe a comparação, funcionam como “franchisings” religiosos. Imagine-se alguém que quer abrir um McDonald’s: essa pessoa tem de cumprir tudo o que a casa-mãe decide, quanto a marketing, preços, confecção dos produtos e por aí fora. Nas TJ, o modelo é o mesmo. Todas as orientações vêm da sede mundial, e os Béteis de cada país enviam-nas para as respetivas congregações. Há, ainda, os superintendentes de circuito, que vão todos os anos visitar as congregações, para verificarem se está tudo “conforme manda a lei”.

Daí podem resultar punições?

Se houver anciãos que não estejam “em linha”, podem ser destituídos das funções. Não têm autonomia para fazer nada que não esteja na cartilha da organização. Não podem decidir por eles mesmos agir desta ou daquela maneira, na maioria dos casos. Têm as orientações e, havendo dúvidas, ligam para o Betel, para receber instruções. É o que acontece, por exemplo, com denúncias de abuso sexual de crianças. As regras da organização exigem que haja pelo menos duas testemunhas – que, como é óbvio, nunca existem. E, por isso, os casos têm sido deixados “nas mãos de Jeová”.

E hoje acha que deve desculpas a alguém que foi ostracizado na sua congregação?

Infelizmente, participei uma vez numa comissão judicativa e mais tarde na comissão de readmissão da pessoa em causa. São situações emocionalmente dolorosas para todos. Na altura, agi de boa-fé. O que comecei a fazer, enquanto ainda era ancião, foi um trabalho em segredo de ativismo, de denúncia de más práticas, expondo online aquilo de que discordava. No fundo, foi e é a minha forma de “desmanchar” algum mal que eventualmente possa ter cometido enquanto ancião.

Já estava em dissidência quando ainda era ancião?...

Sim. Tinha um blogue sobre as TJ e o uso do sangue, que escrevia sob pseudónimo.

Foi “apanhado”?

Não. Sempre tive um comportamento exemplar, nunca suspeitariam de mim. Casei-me virgem, aos 25 anos, com uma TJ… E só celebrei pela primeira vez o meu aniversário quando fiz 40 anos, estava já em processo de afastamento. A minha mulher organizou um jantar-surpresa de amigos. Foi algo inesquecível e ao mesmo tempo estranho.

As suas primeiras dúvidas doutrinais surgiram com a questão da recusa das transfusões de sangue?

No princípio, essa era a questão que me preocupava mais. A pessoa pode viver ou morrer por causa de uma interpretação doutrinal errada, o que para mim se tornou chocante quando passei a pesquisar o assunto a fundo.

Pode explicar melhor? 

A organização começou por proibir todo o uso do sangue no final dos anos 1940, tanto as frações primárias – o plasma, as plaquetas, os glóbulos brancos e os vermelhos –, quanto as secundárias – derivados como a imunoglobulina, para doentes auto-imunes, ou os Fatores VIII e IX, que os hemofílicos precisam. 

Dizia que toda a utilização do sangue era errada. Usava textos bíblicos da Lei Mosaica que determinam que o sangue – símbolo da vida –, quando sai do corpo do animal, deve ser inutilizado. Quando um israelita matava um animal para comer, ele era sangrado e simbolicamente devolvia-se a Deus aquela vida que tinha sido tirada. 

Já a partir dos anos 2000, a organização começa a enviar informação a dizer que, “segundo a consciência de alguns”, usar frações secundárias não é o mesmo que utilizar o sangue. Inicia-se uma distinção entre o uso do “sangue bom” e do “sangue mau”, por assim dizer.

Uma divisão perigosa…

Conheci casos de pessoas que morreram por recusarem a transfusão de sangue, e outras que, porque a aceitaram, foram expulsas. E, de repente, a organização começa a dizer que alguns podem aceitar o uso de frações ditas “secundárias” de sangue. Fiquei confuso e, pela primeira vez, com dúvidas. Pensei: se o uso do sangue é condenado por Deus, seja na totalidade ou em frações – as TJ têm essa noção errada da transfusão de sangue total, quando é sempre uma transfusão de componentes do sangue em separado –, havia ali uma incoerência doutrinal face aos ensinamentos bíblicos que, no passado, tinha recebido na organização.

O que se seguiu?

Uma Testemunha está habituada a ouvir que as dúvidas são más, provêm de Satanás, e por isso atira-as para trás das costas. “Jeová há de providenciar novos entendimentos e esclarecimentos sobre o assunto” – é o que se pensa. Mas eu fiz muitas pesquisas e percebi a trapalhada doutrinal que ali estava. Nem os judeus, que seguem de uma forma muito mais rigorosa a “lei do sangue”, conforme está no Antigo Testamento, aceitam a doutrina de recusa da transfusão. As TJ, porém, são farisaicas ao ponto de colocarem vidas em causa.

Mas a decisão final está nas mãos das pessoas... 

Não é bem assim. Verifiquei que há muita informação deturpada, em que a organização exagera os defeitos, esconde os benefícios, e diaboliza o assunto de tal maneira que a pessoa fica apavorada. Acabam dizendo que, se a pessoa aceitar uma transfusão, está condenada por Deus, não vai para o “paraíso”. 

Mais: arrisca-se a ser expulsa da organização, o que lhe acarreta outro peso – a decisão terrível entre aceitar a transfusão, que pode resultar na expulsão e na perda dos laços familiares e dos amigos, ou não aceitar e correr um sério risco de vida.

Como se afastou da organização?

Aos poucos, eu e a minha mulher deixámos de ir às reuniões. Em 2018, tive a comissão judicativa, em que me dissociei, e na qual entreguei uma carta em que explico ao pormenor as minhas discordâncias.

Qual foi a reação da sua mãe quando se afastou?

Da minha mãe e dos meus sogros, que também são TJ. Os laços não foram rompidos porque tomámos a opção de nos afastarmos discretamente – caso contrário, seria um “escândalo”. É claro que ficaram tristes, mas respeitaram a nossa posição. Devia ser assim em todos os casos.

Como vive hoje a sua religiosidade?

Não diria a minha religiosidade, mas a minha espiritualidade. Deixei de acreditar na religião organizada. A maior parte das religiões acabam por desempenhar um papel de controle, de manipulação das pessoas – dos seus medos e angústias. E, como no caso das TJ, muitas vezes as pessoas não veem mais nada, como se lhes pusessem palas nos olhos, e perdem todo o sentido crítico.

Entrevista de António Madaleno
ao Observador

https://www.paulopes.com.br